As Máquinas Não Dormem
- Tiago Quevedo
- 16 de out.
- 4 min de leitura

Tiago Campos Quevedo
O relógio não marca mais o tempo: ele cobra. A cada instante exigimos de nós mesmos mais entrega, mais atenção, mais resultados — e menos pausa. Nesse contexto, o sono e o descanso, que sempre foram entendidos por séculos em várias culturas como reparadores e sagrados, passaram a ser vistos como secundários e como inimigos da produtividade.
Quantas vezes você já ouviu frases como:
Durmo quando morrer.
Enquanto os outros dormem, eu trabalho.
Quem dorme demais, perde oportunidades.
Essas expressões representam a simbologia do discurso de uma cultura que no fundo, sabemos que precisa mudar. A saúde mental cobra a sua fatura, e não adianta insistir em associar erroneamente exaustão com mérito.
Por trás dessa filosofia do "nunca parar", esconde-se uma crença silenciosa e perigosa: a de que o ser humano é como uma máquina, e sabemos que Maquinas não dormem.
O Custo Invisível de Trocar Sono por Desempenho.
Sabemos, de acordo com Henderson & Horan (2021), que a privação de sono reduz drasticamente a função executiva, a tomada de decisão, a criatividade e o controle emocional.
Uma noite mal dormida já prejudica a memória de trabalho e a capacidade de concentração tanto quanto o consumo moderado de álcool (Pilcher & Huffcutt, 1996).
A ilusão é que estamos rendendo mais — mas, na prática, estamos apenas mais ansiosos, dispersos e irritados.
O corpo tenta compensar: mais café, mais doce, mais estímulos artificiais de dopamina, mas a mente começa a se fragmentar. A emoção perde sutileza, o raciocínio perde precisão, e o indivíduo perde presença. O profissional que "nunca para" vai se tornando menos funcional e propício a erros — sempre ocupado, raramente criativo.
O sono é fundamental para a integração psíquica. É nele que a mente processa experiências, reorganiza memórias, elabora conflitos e reintegra sentidos (Stickgold & Walker, 2013). Cortar o sono é cortar o elo entre o que fazemos e quem somos.
Quando Dormir Vira Fraqueza.
O mais intrigante é perceber como o ato de dormir foi moralmente desvalorizado. Em muitas culturas corporativas, quem diz "vou dormir cedo" é visto como alguém que "desiste" — como se o descanso fosse um luxo, e não uma necessidade fisiológica e psicológica.
Esse fenômeno tem raízes filosóficas profundas. Como observa Byung-Chul Han (2015), na sociedade do cansaço, o sujeito de desempenho explora a si mesmo até a exaustão, acreditando estar realizando sua liberdade.
Desde a Revolução Industrial, o corpo passou a ser medido pelo tempo útil de produção. Descansar virou sinônimo de improdutividade, e o sono — um obstáculo à eficiência. Mas o que essa lógica ignora é que a mente produtiva nasce do corpo descansado. Não há insight criativo, empatia ou sabedoria em um sistema nervoso exaurido, sempre em estado de alerta.
A Ansiedade de Prestígio e Desempenho.
Do ponto de vista psicológico, a privação de sono pode esconder um sintoma mais profundo: a dificuldade de se autorizar a descansar.
Muitos profissionais que "não conseguem parar" estão presos a uma autoimagem de valor baseada em performance. Inconscientemente, acreditam que só são dignos de confiança, respeito ou pertencimento quando estão produzindo em grande escala e afirmando isso constantemente aos colegas (Chen et al., 2024). Assim, o descanso desperta culpa pois ameaça essa identidade construída sobre o fazer.
Outro fator que aparece no consultório: pessoas que mascaram a ansiedade trabalhando. São pacientes que temem o vazio que o silêncio noturno revela, pois sabemos que sem o ruído das tarefas, surgem as vozes internas, angústias e as perguntas não respondidas sobre seus planos, relacionamentos, etc.
Por isso, a "alta performance" muitas vezes é um mecanismo de defesa sofisticado: um modo de manter distância de si mesmo. Trabalhar demais é, em certos casos, uma forma de não sentir (Palmer et al., 2025).
Redefinindo: do Fazer ao Ser.
Talvez um dos segredos seja redefinir o que é qualidade de vida.
Se qualidade de vida ou sucesso é apenas estar sempre ocupado, estamos cultivando uma sociedade esgotada e emocionalmente doente.
Precisamos recuperar o cuidado consigo mesmo. Como propõe Matthew J. Edlund (2010) em "The Power of Rest", o descanso não é passividade, mas sim uma competência ativa biológica essencial.
Pessoas e organizações que compreendem isso já estão revendo suas crenças, e o sono passa necessariamente por essa revisão. Sabemos que o sono é aliado da inteligência emocional, da criatividade e da empatia (Lo et al., 2016).
Se quisermos uma sociedade lúcida, precisamos dormir melhor, precisamos de momentos de descanso e silêncio.
Referências
BYUNG-CHUL HAN. The Burnout Society. Stanford University Press, 2015.
EDLUND, M. J. The Power of Rest: Why Sleep Alone Is Not Enough. HarperOne, 2010.
HENDERSON, A. A.; HORAN, K. A. A meta-analysis of sleep and work performance: An examination of moderators and mediators. Journal of Organizational Behavior, v. 42, n. 8, p. 1012-1034, 2021.
PILCHER, J. J.; HUFFCUTT, A. I. Effects of sleep deprivation on performance: A meta-analysis. Sleep, v. 19, n. 4, p. 318-326, 1996.
PALMER, C. A. et al. Sleep loss and emotion: A systematic review and meta-analysis of over 50 years of experimental research. Sleep Medicine Reviews, v. 73, 2025.
LO, J. C. et al. Self-reported sleep duration and cognitive performance in older adults: A systematic review and meta-analysis. Sleep Medicine, v. 17, p. 87-98, 2016.
CHEN, Y. et al. The impact of sleep quality on emotion regulation difficulties in adolescents: A chained mediation model. BMC Public Health, v. 24, 19400, 2024.
STICKGOLD, R.; WALKER, M. P. Sleep: A Very Short Introduction. Oxford University Press, 2013.


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